O aprendizado da agricultura no combate ao Aedes aegypti

Eficiente para controle de pragas na agricultura, o MIP pode ser estratégia para combate ao Aedes aegypti

O aprendizado da agricultura no combate ao Aedes aegypti

Maurício Antônio Lopes
Presidente da Embrapa

O clima tropical permitiu ao Brasil intensificar sua agricultura em níveis inéditos: graças ao avanço tecnológico alcançado é possível chegar a três safras ao ano em muitas partes do território brasileiro. No entanto, a abundância de sol, calor e umidade, que favorece o desenvolvimento das lavouras, também acolhe e multiplica grande diversidade de doenças e pragas.
Para lidar com a multiplicação dessas pestes da agricultura, a pesquisa agropecuária formulou, há décadas, o Manejo Integrado de Pragas (MIP). O MIP preconiza períodos sem cultivo – chamados de “vazios sanitários” –, épocas diferenciadas de plantio, rotação de culturas, uso de materiais genéticos tolerantes ou resistentes, controle biológico de insetos-praga com o uso de vírus, bactérias, predadores e parasitas, além do controle químico. A combinação dessas soluções amplia substancialmente a capacidade dos agricultores de controlar as pragas das suas lavouras.
Experiências de sucesso no controle de inúmeros insetos-praga da agricultura podem complementar o conhecimento já desenvolvido pelos órgãos de saúde pública e auxiliar na busca de alternativas para o controle de insetos vetores de doenças. A prática de manejo integrado é uma delas e pode auxiliar na contenção da preocupante expansão populacional do mosquito Aedes aegypti, e de suas consequências graves para a população brasileira, como a transmissão de vírus causadores da dengue, chikungunya e zika.

É fundamental concentrar a ação para seu monitoramento e controle em áreas com alta densidade populacional. Sobretudo onde ocorre ocupação desordenada, porque aí as fêmeas do mosquito dispõem de mais alimentos e mais locais para desovar.
Os mecanismos de adaptação e de dispersão do inseto são muito eficientes, à semelhança de diversas pragas agrícolas. Isso exige a combinação de diversos métodos e técnicas para inibir o crescimento da sua população. Cada fêmea vive de 30 a 35 dias. Nesse período, faz de quatro a seis posturas, podendo dar origem a até 1.500 mosquitos. Os ovos são distribuídos por inúmeros criadouros. Isso garante a dispersão da espécie e sua preservação, porque dificulta o seu combate. Além disso, os ovos resistem em ambientes secos por até 450 dias, permitindo que aguardem o retorno da umidade e do calor para que eclodam.
A redução efetiva da população de Aedes aegypti requer práticas de manejo integrado, que combinem diferentes ações de controle. Além de intensificar ações de limpeza e eliminação dos locais de reprodução do mosquito, e de aplicação planejada de inseticidas químicos, de baixo impacto ambiental, onde há concentração muito alta de adultos, é necessário preparar a população para atuar diretamente na eliminação das fontes de risco no interior e ao redor das residências.