
A presença de animais silvestres em áreas urbanas pode surpreender moradores do Oeste Paulista. Capivaras próximas a cursos d’água, tamanduás em áreas residenciais, cobras em terrenos e aves em diferentes espaços das cidades são exemplos de encontros entre a população e a fauna nativa.
Levantamentos da Polícia Militar Ambiental mostram que foram realizados 159 resgates de animais silvestres em 2025 pela 3ª Companhia, sediada em Presidente Prudente e responsável pelo atendimento de 53 municípios.
Somnte entre janeiro e setembro de 2025 foram registrados 134 resgates. No mesmo intervalo de 2026, o número foi de 52.
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Onças, tamanduás e cobras: entenda porque animais silvestres aparecem nas áreas urbanas no Oeste Paulista — Foto: Reprodução
A comparação representa uma redução de aproximadamente 61,2% nos resgates registrados nos dois períodos. Os números, entretanto, não permitem concluir que a presença de animais silvestres nas cidades tenha diminuído na mesma proporção, já que se referem a resgates realizados em uma área que abrange 53 municípios, e não exclusivamente a avistamentos em áreas urbanas.
Os atendimentos do Corpo de Bombeiros também ajudam a dimensionar a demanda relacionada a animais. Em 2025, o 14º Grupamento de Bombeiros registrou 2.831 ocorrências envolvendo animais ou insetos, com 52 vítimas e nenhuma morte.
De janeiro até 1º de outubro de 2026, foram contabilizadas 2.039 ocorrências da mesma categoria, com 41 vítimas e nenhuma morte.
Os dados incluem atendimentos envolvendo animais domésticos e insetos, além de animais silvestres. Por isso, não devem ser interpretados como um levantamento exclusivo de ocorrências com fauna nativa em áreas urbanas.
Aumento de animais
Mas, afinal, por que esses animais aparecem cada vez mais perto das pessoas? Para especialistas, a resposta passa pela maneira como as cidades se expandem e modificam os ambientes naturais, além da disponibilidade de alimento, água e abrigo.
A presença desses animais, no entanto, não significa necessariamente que a fauna esteja aumentando ou que os bichos estejam invadindo os municípios. Em muitos casos, o avanço das áreas urbanizadas sobre ambientes naturais e a fragmentação desses espaços ajudam a explicar os encontros.
Segundo o biólogo André Gonçalves Vieira, de 45 anos, de Presidente Prudente (SP), é importante considerar que os animais já ocupavam esses ambientes antes da expansão urbana.
“A presença desses animais não significa necessariamente que eles estejam ‘invadindo’ a cidade. Muitas vezes é a cidade que avançou sobre ambientes que anteriormente faziam parte da área de vida desses animais”, explica.
Expansão urbana
O crescimento das cidades pode transformar áreas naturais contínuas em pequenos fragmentos de vegetação separados por ruas, construções, plantações e rodovias. Essa divisão modifica o espaço disponível para os animais e pode dificultar o acesso a recursos necessários para a sobrevivência.
André compara esse processo à transformação de uma grande área de vegetação em pequenas porções isoladas.
“Imagine uma grande floresta transformada em várias pequenas ‘ilhas verdes’ cercadas por ruas, plantações e estradas. O animal pode até encontrar alimento em uma dessas ilhas, mas precisa atravessar áreas perigosas para chegar a outra”, esclarece.
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Os biólogos André Gonçalves e Luiz Waldemar, de Presidente Prudente (SP), explicaram os motivos das aparições — Foto: Imagens Cedidas
Com a redução e a fragmentação dos habitats, algumas espécies passam a circular por áreas próximas às casas e a utilizar espaços urbanos ou periurbanos para encontrar alimento, água e abrigo.
O biólogo Luiz Waldemar de Oliveira, de 59 anos, que também atua em Presidente Prudente, explicou também que o município reúne diferentes ambientes capazes de abrigar animais silvestres.
Entre eles estão áreas de preservação permanente (APPs), fragmentos de vegetação, a região do Balneário da Amizade, a Represa da Cica, praças e o Parque do Povo.
A proximidade entre esses espaços verdes e as áreas construídas favorece o contato entre a fauna e os moradores. Além disso, o município possui uma extensa área de transição com a zona rural, o que também contribui para a presença de animais nas proximidades da cidade.
Segundo Luiz, a formação de corredores ecológicos pode favorecer o deslocamento de vertebrados entre diferentes fragmentos de vegetação. Esses caminhos são importantes para que os animais circulem entre áreas naturais, embora a conservação dos ambientes e a conectividade entre eles sejam fundamentais para esse processo.
Diferentes espécies
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Jacarés, anta e tatu: entenda porque animais silvestres aparecem nas áreas urbanas no Oeste Paulista — Foto: Reprodução
A presença de animais silvestres nas cidades também está relacionada às necessidades de cada espécie. A disponibilidade de água e vegetação, por exemplo, pode favorecer a ocorrência de capivaras em áreas próximas a lagos, córregos e outros ambientes aquáticos.
Já os tamanduás encontram alimento em formigas e cupins e podem circular por áreas de Cerrado, pastagens e fragmentos florestais. Em regiões próximas à zona rural, esses ambientes podem facilitar o deslocamento dos animais para áreas mais próximas das cidades.
As cobras, por sua vez, podem encontrar abrigo e presas em terrenos com vegetação, áreas verdes e outros espaços que ofereçam condições adequadas à sobrevivência.
De acordo com Luiz, a fauna encontrada em Presidente Prudente é diversificada. Entre os mamíferos que podem ocorrer na região estão gambás, morcegos, capivaras, quatis, porcos-espinhos, tatus, cutias, pacas, tamanduás, macacos, veados, lobos-guarás e onças-pardas.
O município também abriga diferentes espécies de aves, répteis e anfíbios. Entre os répteis estão lagartos, teiús, cobras, cobras-cegas, cágados e jacarés.
A presença de uma espécie, porém, depende das características do ambiente e das condições necessárias para que ela consiga sobreviver. Por isso, encontrar um animal em uma área urbana não significa, necessariamente, que ele esteja perdido ou que precise ser retirado daquele local.
Clima
Além das mudanças no uso do solo, condições ambientais também podem influenciar o deslocamento da fauna. Períodos de seca, queimadas e chuvas intensas podem modificar a disponibilidade de água, alimento e abrigo, levando alguns animais a circular por outros ambientes.
As condições de cada ocorrência, entretanto, precisam ser avaliadas individualmente. Não é possível atribuir todos os avistamentos a um único motivo, já que as espécies apresentam comportamentos e necessidades diferentes.
Outro fator que influencia a percepção da população é a circulação de imagens nas redes sociais. Registros de animais encontrados em ruas, quintais e outros espaços urbanos podem ganhar grande alcance e dar a impressão de que os casos se tornaram mais frequentes.
Para afirmar que houve aumento na presença de animais silvestres nas cidades, porém, é necessário comparar dados equivalentes ao longo do tempo.
Os registros de resgates feitos por órgãos públicos ajudam a dimensionar parte dos atendimentos, mas não representam, necessariamente, todos os avistamentos ou a quantidade de animais que circulam em áreas urbanas.
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Elevação de quase 500 metros de altura é destaque na região do Pontal do Paranapanema (SP) — Foto: Fundação Florestal/Divulgação
Riscos
O encontro entre animais silvestres, moradores e animais domésticos pode resultar em acidentes e ferimentos. A aproximação de pessoas, a tentativa de captura e o contato com cães e gatos estão entre as situações que exigem atenção.
Luiz destaca que a convivência entre a fauna e a população também envolve impactos provocados pelos próprios animais domésticos. Cães podem atacar teiús, lagartos, quatis, gambás e porcos-espinhos, enquanto gatos podem matar aves.
O biólogo também chama a atenção para os atropelamentos, que atingem diferentes espécies, inclusive pequenos vertebrados. A circulação de veículos em vias próximas a áreas naturais e a fragmentação dos ambientes podem aumentar a exposição dos animais a esse tipo de risco.
A preservação de áreas de vegetação nativa, a manutenção de APPs, a formação de corredores ecológicos e o plantio de árvores nativas em áreas urbanas são algumas das medidas apontadas por Luiz como importantes para a conservação da fauna.
A educação ambiental também tem papel importante nesse processo, pois ajuda a orientar a população sobre como agir diante de um animal silvestre e a importância de não interferir desnecessariamente no comportamento da espécie.
Ao encontrar um animal silvestre em uma rua, quintal ou outro espaço urbano, a orientação do Corpo de Bombeiros é manter distância e evitar qualquer tentativa de captura.
A aproximação pode estressar o animal e provocar uma reação defensiva. Por isso, também não se deve encurralá-lo, tentar assustá-lo ou oferecer comida.
Entre as recomendações estão:
- Mantenha distância: não toque nem tente capturar o animal.
- Afaste crianças e animais domésticos: cães e gatos podem provocar reações defensivas e se ferir.
- Evite aglomerações: não cerque o animal nem dificulte sua movimentação.
- Não ofereça alimentos: deixe que ele siga seu comportamento natural.
- Preserve uma rota de saída: sempre que possível, permita que o animal se afaste sem ser perseguido.
- Acione ajuda especializada: em situações de risco, quando o animal estiver ferido ou preso, entre em contato com o Corpo de Bombeiros pelo telefone 193.
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Entenda porque animais silvestres aparecem em áreas urbanas no Oeste Paulista — Foto: Reprodução











